O que importa não é SÓ o brilho nos olhos

Você já deve ter notado como é difícil para o ser humano aprender com base em erros ou lições de vida de terceiros, não é?

Bruna Losada

Bruna Losada · 17 Jun 2019

O que importa não é SÓ o brilho nos olhos

Você já deve ter notado como é difícil para o ser humano aprender com base em erros ou lições de vida de terceiros, não é? Daí o inestimável valor da experiência: aquele conhecimento adquirido na própria pele, com base em nossos erros e acertos sentidos em primeira mão. É natural, afinal já conhecemos diversas heurísticas (atalhos mentais do pensamento humano, inclusive a chamada “intuição”) – como excesso de confiança, auto-atribuição do sucesso, excesso de otimismo, dentre outros, que fazem com que sejamos em geral propensos a assumir riscos. Os empreendedores, seres humanos que são, não estão livres dessas armadilhas.

Você está se perguntando: Bruna, e daí, por que você está dizendo isso? Explico.

Em inúmeras ocasiões nos últimos anos ouvi de empreendedores – em especial brasileiros – falácias como:

  • “Não dá pra fazer valuation de startup!”
  • “Fundos não investem no fluxo de caixa da startup, investem no empreendedor!”
  • “Valuation não serve pra nada em startup, precisa ver energia no empreendedor, e fazer as coisas acontecerem.”
  • “O que importa é crescer rápido, e não gerar caixa!”
  • “Afffff.... lucro!?! Claro que meu negócio não dá lucro! Um investidor que investe em startup não espera isso, espera outras coisas!”
  • “O investidor só espera que alguma de suas investidas vire um unicórnio, não importa se gera caixa ou não!”
  • “Um bom investidor sabe que a startup não vai gerar caixa – nem hoje e talvez nunca! – o que importa é o brilho no olho e a garra do empreendedor!”

Cuidado.

Nós ainda vivemos na era do Capitalismo. Talvez isso mude ao longo de algumas centenas de anos, mas até lá... sim: Capitalismo.

Então não venha me dizer que um fundo colocou o dinheiro no seu negócio SÓ por causa do brilho nos seus olhos castanhos/azuis/sei lá. Dadas todas as incertezas de um negócio em seus primeiros estágios de vida, em especial um negócio com alto componente de inovação, o nível de garra, inteligência, coragem e, especialmente, resiliência do empreendedor são ativos muito valiosos. Mas nenhum desses adjetivos paga conta. E nenhum desses adjetivos, por si só, faz um negócio virar um unicórnio.

O que faz isso é, sim, POTENCIAL de fluxo de caixa. E não dá pra imaginar que apenas o potencial será suficiente: em algum momento esse POTENCIAL terá SIM que virar caixa EFETIVO. Somente assim, pode-se dizer que uma startup tem de fato valor. Não concorda? Vamos pensar um pouco mais.

Veja bem, eu não estou falando uma novidade aqui. Pare para pensar: nós já acumulados em nossa história uma série de crises financeiras e bolhas. E o que aqueles episódios sempre tiveram em comum era o fato de que em algum momento os agentes se esqueceram que o que importa de verdade é o real valor das coisas, e os preços saltaram a níveis absolutamente irracionais e descolados da realidade – até que o absurdo fosse tão grande que todos foram obrigados a reconhecer o erro, e mercados colapsaram. Vamos pensar em alguns casos? Foi assim na crise de 2008 do mercado hipotecário norte-americano. Foi assim na bolha Ponto-Com no início dos anos 2000. Foi assim na bolha financeira e imobiliária no Japão, nos anos 80. E em tantas outras bolhas...

Foi assim até mesmo na Mania das Tulipas, crise holandesa no século XVII! Naquela ocasião o comércio de tulipas – belíssimas por sinal, e como tal muito apreciadas – se tornou um segmento lucrativo. Surgiu até mercado futuro de Tulipas, referentes àqueles bulbos que seriam vendidos e nem mesmo existiam ainda. E num excesso de otimismo, confiança, efeito manada, medo do arrependimento, momento – juntemos aqui diversos vieses cognitivos do nosso processo decisório – nasceu então a loucura das Tulipas. Os preços da bela flor escalaram a níveis absolutamente irracionais. Em algum momento, discreto e sutil – quase imperceptível – as pessoas começaram a se esquecer do que era verdadeiramente o valor intrínseco das tulipas, e daí pra frente a irracionalidade tomou conta, formou-se a bolha, veio a crise, e virou mais uma história que poderia nos ensinar muito.

Por que será que não aprendemos com essas lições, e continuamos com opiniões fortes – e incorretas – como aquelas falácias que mencionei acima? Nossa criatividade nos permite voar em expectativas e sonhos. O que é maravilhoso!!! Mas não podemos cair em armadilhas. Todas aquelas frases de empreendedores ilustram bem uma miopia no entendimento de startups, que podem ser perigosas pois desviam a atenção do conceito de real valor intrínseco das coisas.

Se o empreendedor não está fazendo as contas de potencial de geração de caixa, podemos ter certeza de que o investidor está. Ou pelo menos deveria fazer. Ninguém está dizendo que o negócio tem que gerar caixa hoje, nem mesmo amanhã. Mas em algum momento, pode demorar 10 ou 20 anos, o caixa há de existir, ou unicórnio não há de ser. E veja bem: isso pode sim demorar para acontecer. É possível que as empresas cheguem a fazer IPO sem ter geração de caixa! Mas em algum momento é absolutamente essencial que esse caixa apareça de forma sustentável, ou o valor irá sim colapsar. A bolha Ponto.Com nos ensinou essa lição, lembram?

Então não me diga que o caixa não importa para a startup, ou que o valuation não importa, ou qualquer coisa do gênero. Se as pessoas realmente acreditarem nisso, é bom termos dó dos que forem os últimos investidores segurando esses “boletos” ao apagar das luzes: porque esses eles perderão muito dinheiro. É claro que há agentes no processo que poderão ter feito dinheiro em cima de um negócio destruidor de caixa. Para aqueles que eventualmente entraram no negócio e conseguiram repassar o investimento a um próximo investidor, a um bom preço, é possível que fortunas tenham sido feitas. Agora me diz: quem serão os últimos a entrarem no negócio, que estarão investidos quando for evidente que a geração de caixa não virá? Pois eles vão sim pagar a conta. E quando isso acontece, se for em volume relevante, o sistema como um todo sofre: bolha.

Em certa ocasião ouvi de dois professores geniais de finanças, muito queridos e relevantes na minha formação, o seguinte: “As Finanças de verdade, as mais puras e genuínas, são as finanças corporativas. Afinal, todo o resto deriva daí.” E faz sentido, como faz! Vamos pensar no sofisticado mercado financeiro e suas ações, debêntures e derivativos, por exemplo.

Uma ação só terá valor se o ativo subjacente – a empresa! – tiver VALOR. E Valor, é potencial de geração de caixa. E sim, para startups também, ainda que isso seja mais difícil de estimar em estágios iniciais de vida. E debêntures? Só terão valor se a empresa tiver capacidade de honrar suas obrigações com credores – sim, veja o caixa de novo! E derivativos? O nome já sugere! DERIVA-DE-ATIVOS, e portanto um derivativo está absolutamente atrelado aos valores de seus ativos subjacentes.

Se analisarmos com o cuidado necessário, sempre acabaremos na chamada Economia Real: aquela que está acontecendo aqui no primeiro plano, no dia a dia das pessoas, do trabalho e das empresas. É a economia real que realmente tem Valor e sustenta toda a pirâmide acima. Foi exatamente isso, por sinal, que a bolha hipotecária de 2008 nos ensinou.

As startups somente têm valor, no fim da linha, se de verdade pudermos vislumbrar real geração de caixa. É sim possível que haja um bom tempo ao longo da vida do empreendimento em que isso seja apenas uma expectativa. Pergunta: é possível que existam negócios que destruam caixa permanentemente e tenham valor? Sim, mas se – e apenas se – esse negócio trouxer benefícios intangíveis ou recursos valiosos para algum conglomerado maior, de forma que o conglomerado como um todo consiga gerar mais caixa em virtude desse negócio. Então veja só: se o todo não gerar caixa, tampouco adianta!

Para ilustrar esse último comentário, faço aqui uma referência a uma característica da nova economia: a era dos dados. Há inúmeros casos de empresas que estão lançando produtos/aplicativos/etc sem cobrar nada por eles, pois o objetivo desses produtos é unicamente gerar dados. Esse negócio irá destruir caixa perpetuamente. No entanto, ele é absolutamente valioso pois essa enorme quantidade de dados irá permitir que o conglomerado faça uso de informações essenciais para a venda de produtos/serviços em volume e assertividade muito maior, com geração de caixa, a ponto de compensar todo o custo envolvido na aquisição dos dados. Então novamente voltamos à mesma realidade: no final da linha, sempre tem o caixa.

Não podemos nos iludir: vivemos na ordem capitalista, e o capital espera sim, e com razão, ser remunerado. E essa remuneração deve vir não através de leads, de likes, de assinantes, de compartilhamentos. Mas, sim, o capital espera ser remunerado através de Caixa.

Sim, o caixa ainda é rei.

Bruna Losada ·17 Jun 2019

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